Outro dia, estava eu num show de Moraes Moreira. A primeira impressão que tive foi de que não existem mais pessoas sensíveis, que tudo não passa de um teatro, com cortinas e bastidores, assim como naquele que me encontrava.
Olhei por todos os lados e não consegui encontrar uma só pessoa que aparentasse ter a mesma idade que eu.
Poucos minutos depois de tomada a música de abertura, um homenzinho pra lá da meia-idade corre com sagacidade em direção ao palco; todos cochicham, ficam surpresos com sua atitude, embora aguardem ansiosos para o início do show; sim, Moraes já estava no palco, mas o verdadeiro espetáculo começou naquele instante.
De uma maneira audaciosa, o velhinho começou a misturar xaxado, forró, samba e ainda conseguiu encaixar o rock and roll em sua dança.
Moreira, de relance, aparentou não ter gostado muito da situação, já que as atenções se voltavam apenas para o outro. De repente, ele começou a cantar uma música com letra e ritmo infantis. Meus olhos voltam a reverenciar o velhinho. Os céticos hão de perdoar, mas eu juro nunca ter sentido antes uma sensação de tamanha grandiosidade. Além de todo o emaranhado de sentimentos, me surge um paradoxo: a criança e o ancião. A música que estava sendo tocada, tornava-se desproporcional ao personagem que a representava naquele momento. Isso me fez chorar. Não sei se com a mesma freqüência de uma criança que ainda não consegue falar, ou como um velhinho em seus últimos dias de vida. Até mesmo o meu pranto fez-se antagônico.
Terminada a apresentação, todos retornam às suas casas. E a vida segue.
Amanhã estarei novamente no colégio. Moraes, provavelmente, terá que cumprir mais um show da sua agenda musical ou menos improvável ainda, tomará um whisky no interior de Pernambuco lembrando os tempos dos “novos baianos”. A massa deve labutar em mais um dia de trabalho; e o velhinho passa desapercebido pelas ruas quando vai rumo a mais um dia de pagamento da sua aposentadoria.
K.M.
;
sábado, 26 de setembro de 2009
Marcadores:
Keoma Mariz
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Sensacional, Keoma. Parabéns!
ResponderExcluir